Prefeitura acorda comprar combustível com sobrepreço de R$ 1 milhão com recursos do FUNDEB
O Ministério Público do Estado do Piauí (MP-PI) identificou “indícios robustos de irregularidades” no Credenciamento nº 002/2025 instaurado pela Prefeitura de Barras para aquisição de combustíveis, óleos lubrificantes e graxas, com valor estimado em R$ 9,2 milhões. O levantamento, feito pelo Centro de Apoio Operacional de Combate à Corrupção e Defesa do Patrimônio Público (CACOP), aponta possível sobrepreço superior a R$ 1 milhão apenas no item gasolina comum.
A informação consta no Parecer Jurídico nº 166/2025, que embasou uma recomendação assinada pelo promotor de Justiça Glécio Paulino Setúbal da Cunha e Silva, orientando o prefeito de Barras, Edilson Capote, a anular integralmente o credenciamento.
Indícios de vícios e sobrepreço
Segundo o documento, o credenciamento apresenta “vícios insanáveis”, entre eles:
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Inadequação da modalidade de credenciamento para um objeto que deveria ser licitado por pregão eletrônico;
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Contradição interna no Estudo Técnico Preliminar (ETP), que reconhece a própria insuficiência do credenciamento;
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Pesquisa de preços incompatível com o mercado regional, resultando em sobrepreço estimado entre R$ 766,7 mil e R$ 1,045 milhão apenas para gasolina comum.
Uso indevido de recursos da educação
O MP também identificou o uso de recursos do FUNDEB — incluindo a complementação da União e o Salário-Educação — para despesas alheias à finalidade educacional, o que configura desvio de finalidade e malversação de verbas públicas federais.
“A utilização de recursos do FUNDEB e do Salário-Educação para aquisição de combustíveis não relacionados ao transporte escolar constitui desvio de finalidade e malversação de verbas públicas federais, violando a vinculação constitucional específica desses recursos à educação”, alertou o promotor.
Gasolina a R$ 7,90 o litro
O parecer destaca ainda que a pesquisa de preços realizada pelo município utilizou apenas um parâmetro de referência, o da cidade de Altos (PI), que apresentou valor de R$ 7,90 por litro de gasolina comum.
A comparação feita pelo CACOP mostra que municípios de porte semelhante praticam valores bem menores:
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Campo Maior: R$ 6,03
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Piripiri: R$ 6,00
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União: R$ 5,96
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Esperantina: R$ 5,35
A discrepância evidencia falha técnica grave na aferição dos preços de mercado.
Risco de prejuízo milionário
Além disso, o próprio Estudo Técnico Preliminar do município admite que o credenciamento não assegura fornecimento contínuo nem preços competitivos, o que reforça a inadequação do procedimento.
Para o MP, a manutenção do credenciamento irregular representa grave risco de dano ao erário municipal, com potencial prejuízo de mais de R$ 1 milhão apenas na gasolina comum, comprometendo recursos que deveriam ser destinados a áreas essenciais como saúde, educação e assistência social.
O Ministério Público recomendou a anulação imediata do credenciamento e a adoção de um processo licitatório adequado, sob pena de adoção de medidas judiciais.

