Piauí cria reserva de R$ 89,5 milhões para enfrentar desastres climáticos e crises hídricas

Os impactos das mudanças climáticas já fazem parte do planejamento financeiro do Governo do Piauí. Pela primeira vez, o Estado reservou R$ 89,5 milhões no orçamento para ações de prevenção, mitigação e resposta a eventos climáticos extremos, como secas prolongadas, estiagens, ondas de calor e crises hídricas.
O montante está previsto no Projeto de Lei de Diretrizes Orçamentárias (PLDO) de 2027 e integra a Reserva de Contingência, que terá um total de R$ 350 milhões. Os outros R$ 260,5 milhões serão destinados à cobertura de eventuais impactos decorrentes de processos judiciais em tramitação no Supremo Tribunal Federal (STF), conforme o Anexo de Riscos Fiscais aprovado pela Assembleia Legislativa do Piauí (Alepi).
A medida ocorre em meio ao agravamento dos efeitos das mudanças climáticas. Na Europa, junho deste ano foi o mês mais quente da história. No Piauí, um estudo aponta que, entre 2000 e 2019, cerca de 2,5 mil pessoas morreram em decorrência do calor extremo. Paralelamente, cresce o número de municípios que decretam situação de emergência por causa da seca.
Segundo o secretário estadual de Planejamento, Washington Bonfim, a reserva representa um avanço na forma como o Estado organiza seus recursos para enfrentar riscos futuros e está alinhada ao novo arcabouço fiscal federal, que entrará em vigor integralmente em 2027.
“A partir do ano que vem, nós vamos começar a fazer o que chamamos de marcação orçamentária. Isso significa organizar o orçamento para sabermos exatamente quanto foi destinado à mitigação dos riscos climáticos e avaliar, ao final do exercício, se os R$ 89,5 milhões foram suficientes, insuficientes ou sequer precisaram ser utilizados por não haver eventos extremos”, explicou.
O diretor de Projeções e Metas Fiscais da Secretaria de Planejamento (Seplan), Sérgio Silva, destacou que a reserva funciona como um mecanismo de proteção para garantir recursos imediatos em situações inesperadas.
“O valor da reserva de contingência, quando não é utilizado durante o ano, reforça as ações orçamentárias ordinárias. Se o risco não se concretizar, os recursos podem ser direcionados para políticas públicas nas áreas de saúde, educação, infraestrutura ou outras necessidades do Estado”, afirmou.
Defesa Civil considera medida um marco no planejamento
Para o diretor de Prevenção e Mitigação da Defesa Civil do Piauí, Werton Costa, a criação da reserva financeira representa uma mudança estrutural na forma como o Estado enfrenta os efeitos das mudanças climáticas.
Segundo ele, o planejamento vem sendo construído há cerca de dois anos com base em estudos técnicos e estimativas sobre os impactos dos desastres naturais no estado.
“Esse é um processo feito a muitas mãos, baseado em estimativas globais de impacto de desastres e considerando também todas as estatísticas registradas no Piauí”, destacou.
Werton explicou que o trabalho envolve diferentes órgãos estaduais. Enquanto a Defesa Civil coordena as ações emergenciais, como logística, distribuição de insumos e utilização de maquinário, a Secretaria de Meio Ambiente e Recursos Hídricos (Semarh) é responsável pelo Plano de Ação Climática, voltado para medidas permanentes de adaptação e prevenção.
Entre essas ações estão políticas de conservação do solo, preservação de reservatórios, enfrentamento da seca e estratégias para reduzir os impactos das altas temperaturas.
“É uma estratégia de planejamento do Estado, algo que anteriormente não existia e que agora está consolidado em normas e resoluções. Tornou-se uma política de Estado, e não apenas de governo”, ressaltou.
Municípios enfrentam seca e calor extremo
Os efeitos das mudanças climáticas já são sentidos em diversas regiões piauienses. Somente em 2025, cerca de 125 municípios decretaram situação de emergência devido à seca, principalmente nas áreas do semiárido, onde o acesso à água se tornou ainda mais difícil.
Além disso, em janeiro de 2026, o Piauí ocupava a terceira posição entre os estados do Nordeste com maior número de focos de calor, reflexo das chuvas irregulares, da estiagem prolongada e do aumento das temperaturas, cenário que reforça a necessidade de investimentos permanentes em prevenção e resposta a desastres climáticos.
