Novos casos de HIV caem 43% no mundo desde 2010, mas ONU alerta para risco de retrocessos

O número de novos casos de HIV no mundo caiu 42,9% desde 2010, atingindo o menor nível desde o início da epidemia. No mesmo período, as mortes relacionadas à Aids foram reduzidas em 56%, reflexo da ampliação do acesso ao tratamento antirretroviral. Os dados fazem parte do relatório global divulgado nesta segunda-feira (27) pelo Programa Conjunto das Nações Unidas sobre HIV/Aids (Unaids).
Apesar dos avanços históricos, a ONU alerta que a redução do financiamento internacional e doméstico para programas de prevenção e tratamento ameaça comprometer a meta de eliminar a Aids como ameaça à saúde pública até 2030. Atualmente, cerca de 9 milhões de pessoas ainda não têm acesso à terapia antirretroviral.
Menor número de infecções em décadas
Segundo o relatório, o mundo registrou aproximadamente 1,2 milhão de novas infecções por HIV em 2025, uma queda significativa em relação aos 2,1 milhões de casos registrados em 2010.
As mortes por complicações relacionadas à Aids também apresentaram forte redução. Em 2025, foram contabilizados 570 mil óbitos, contra 1,3 milhão há 15 anos, o menor número registrado nos últimos 30 anos.
Hoje, cerca de 41 milhões de pessoas vivem com HIV em todo o planeta. A cobertura do tratamento antirretroviral, responsável por impedir a evolução da infecção para a Aids, passou de 24% em 2010 para 78% em 2025.
Metas da ONU ainda não foram alcançadas
Embora os indicadores mostrem avanços importantes, os resultados ainda estão distantes das metas estabelecidas pela Organização das Nações Unidas para 2025.
A expectativa era reduzir os novos casos anuais para 200 mil, mas o total ficou cerca de 1 milhão acima da meta. No caso das mortes, o objetivo era chegar a 170 mil óbitos por ano, porém o número registrado foi aproximadamente 400 mil superior.
Avanço na prevenção da transmissão de mãe para filho
Um dos destaques positivos do relatório é a ampliação da prevenção da transmissão vertical do HIV, de mãe para filho durante a gestação, parto ou amamentação.
Em 2025, 87% das gestantes que vivem com HIV receberam tratamento preventivo, percentual bem superior aos 51% registrados em 2010. Como consequência, cerca de 4,8 milhões de infecções infantis foram evitadas, enquanto os casos entre crianças caíram 69% no período.
Mesmo assim, as crianças continuam sendo um dos grupos mais vulneráveis. Apenas 54% das crianças que vivem com HIV têm acesso ao tratamento, deixando mais de 580 mil sem assistência médica. Embora representem cerca de 3% das pessoas infectadas, elas responderam por 11% das mortes relacionadas à Aids em 2025.
Desigualdade no acesso ao tratamento
O relatório aponta que o acesso aos serviços de saúde continua desigual entre diferentes grupos da população.
Em nível global, 74% dos homens que vivem com HIV recebem tratamento, enquanto entre as mulheres esse índice chega a 84%. No entanto, em regiões como a América Latina, o Oriente Médio e o Norte da África, o cenário se inverte, com mulheres enfrentando maiores dificuldades para acessar os serviços de saúde.
Além disso, populações consideradas mais vulneráveis — como trabalhadores do sexo, homens que fazem sexo com homens, pessoas trans e usuários de drogas — continuam encontrando barreiras para iniciar e manter o tratamento, mesmo em países com elevada cobertura assistencial.
Cortes de recursos preocupam a ONU
O documento destaca que a maior preocupação é a redução dos investimentos destinados ao combate ao HIV, especialmente na África Subsaariana, onde 83% dos programas dependem de financiamento internacional.
Os impactos dos cortes já começaram a ser sentidos em 2025. Em 62 países analisados, o número de pessoas utilizando a profilaxia pré-exposição (PrEP) caiu 38% entre 2024 e 2025. O financiamento para distribuição de preservativos despencou 93%, enquanto a realização de testes de HIV recuou 22% em países com alta prevalência da doença.
Também houve uma redução de 80% nos recursos destinados a programas voltados à promoção dos direitos humanos e à criação de ambientes de proteção para pessoas em situação de maior vulnerabilidade.
Para o Unaids, manter os investimentos em prevenção, diagnóstico e tratamento será decisivo para evitar retrocessos e alcançar o objetivo global de acabar com a Aids como ameaça à saúde pública até 2030.
