Exame de sangue exige atenção ao horário, alimentação e até relações sexuais; entenda

Fazer um exame de sangue vai muito além de comparecer ao laboratório e aguardar o resultado. O horário da coleta, a alimentação, a prática de exercícios físicos e até mesmo uma relação sexual podem influenciar determinados marcadores e interferir na interpretação dos resultados.
Embora um exame realizado fora das condições ideais não esteja necessariamente errado, alguns fatores precisam ser considerados pelo médico para evitar interpretações equivocadas. A preparação adequada, portanto, faz parte do processo de investigação e acompanhamento da saúde.
Entre os exames que exigem atenção especial estão os de testosterona, cortisol, prolactina, PSA, TSH, ferro, CK e colesterol.
Testosterona deve ser medida preferencialmente pela manhã
A testosterona apresenta variações ao longo do dia e, em geral, registra concentrações mais elevadas durante a manhã. Na investigação de hipogonadismo masculino, a recomendação é que a testosterona total seja dosada entre 7h e 10h, após jejum noturno.
Um resultado baixo, no entanto, não é suficiente para estabelecer um diagnóstico. É necessária a confirmação por meio de uma nova coleta, realizada em condições semelhantes. Sono inadequado, alimentação, doenças agudas e determinados medicamentos também podem influenciar os níveis hormonais.
Cortisol varia conforme o horário da coleta
O cortisol é um dos hormônios que mais evidenciam a importância do momento em que o exame é realizado. Em pessoas com ciclo habitual de sono e vigília, seus níveis começam a subir durante a madrugada, atingem valores elevados no início da manhã e diminuem ao longo do dia, chegando às menores concentrações à noite.
Essa variação é utilizada na investigação de diferentes doenças. Dependendo da suspeita clínica, o médico pode solicitar a medição do cortisol pela manhã ou no período noturno. Dessa forma, o horário da coleta é parte fundamental da interpretação do exame.
Estresse e exercício podem alterar a prolactina
A prolactina também sofre oscilações naturais, influenciadas principalmente pelo sono. Situações de estresse e a prática de exercícios físicos podem provocar elevações temporárias do hormônio.
Quando o resultado apresenta um aumento discreto, o médico pode solicitar uma nova dosagem em condições mais controladas antes de concluir que existe uma alteração hormonal. A ansiedade provocada pelo próprio procedimento de coleta também pode ser relevante em alguns pacientes.
Relação sexual pode interferir no resultado do PSA
O PSA é utilizado principalmente na avaliação da próstata e exige atenção aos acontecimentos anteriores à coleta. A ejaculação e atividades que provocam pressão ou impacto na região, como o ciclismo intenso, podem causar elevações temporárias do marcador.
Por esse motivo, costuma-se recomendar que essas situações sejam evitadas nas 48 horas anteriores ao exame. Procedimentos urológicos e manipulações da próstata também podem interferir no resultado e devem ser informados ao médico.
TSH apresenta variações ao longo do dia
O TSH, hormônio responsável por estimular a tireoide, também sofre alterações ao longo das 24 horas. Isso não significa que todos os pacientes precisem realizar o exame obrigatoriamente no mesmo horário.
Entretanto, em acompanhamentos nos quais pequenas diferenças podem influenciar a interpretação, manter condições semelhantes entre as coletas pode ajudar a distinguir uma mudança hormonal real de uma oscilação fisiológica.
Jejum prolongado pode não ser a melhor opção para o ferro
O ferro sérico é influenciado pela alimentação e apresenta variabilidade biológica. Um estudo com mais de 270 mil resultados apontou que, em adultos, concentrações representativas foram observadas após aproximadamente cinco a nove horas de jejum.
A pesquisa também identificou que períodos muito prolongados, de 12 horas ou mais, podem estar associados a valores mais elevados do ferro sérico. O resultado reforça que aumentar o tempo de jejum por conta própria não garante maior precisão no exame.
A recomendação é seguir as orientações específicas fornecidas pelo médico ou laboratório.
Exercícios intensos podem elevar a CK
Pessoas que praticam atividades físicas intensas podem apresentar aumento significativo da creatinoquinase, conhecida como CK ou CPK, uma enzima encontrada principalmente nos músculos.
Após exercícios vigorosos, especialmente quando são incomuns para o organismo, os níveis da enzima podem permanecer elevados por algum tempo. Essa alteração é importante porque a CK também pode aumentar em situações de lesão muscular e em pacientes que utilizam determinados medicamentos.
Se o médico não souber que houve treinamento intenso antes da coleta, o resultado pode levar a investigações adicionais. Outros marcadores, como AST/TGO e LDH, também podem sofrer influência da atividade física.
Perfil lipídico não exige jejum de 12 horas em todos os casos
Durante muitos anos, o jejum prolongado era uma recomendação comum para a realização do perfil lipídico. Atualmente, exames como colesterol total e HDL podem ser realizados sem jejum em diversas situações, conforme o objetivo da avaliação.
Os triglicérides, porém, merecem atenção, pois podem aumentar após as refeições. Quando os níveis estão muito elevados, o médico pode solicitar uma nova coleta em jejum para complementar a investigação.
A decisão sobre fazer ou não jejum deve considerar o exame solicitado e as orientações do profissional de saúde, e não uma escolha feita por conta própria.
Preparação adequada contribui para um diagnóstico mais preciso
Os exames laboratoriais transformam processos biológicos em números, mas o organismo está em constante mudança. Horário, sono, alimentação, exercícios, medicamentos e outras atividades podem modificar temporariamente determinados resultados.
Por isso, a recomendação é seguir o preparo indicado pelo médico e pelo laboratório, informar possíveis fatores que possam interferir na coleta e, quando o exame for repetido, buscar condições semelhantes para facilitar a comparação.
Um resultado confiável começa antes mesmo da coleta de sangue.
Com informações do médico Douglas Schreck, especialista em Radiologia e Diagnóstico por Imagem do SIR-Mãe de Deus, coordenador do CDI-ultrassom do grupo Vila Nova (HRES) e membro Brazil Health.
